quinta-feira, 23 de junho de 2011

As cidades e os corpos

Desembarquei mais uma vez em São Paulo - cidade que me remete insensatez, um dos motivos de minha estadia aqui por uma semana. Sem uma clara pretensão, explico o que isso significa.

O frenesi impessoal

Filas de gente em qualquer ponto de ônibus de qualquer rua ou avenida, em qualquer horário da manhã ou tarde. Rostos jovens; será que eles não têm emprego? é horário de trabalho... Às vezes é a mesma quantidade, proporcionalmente, em comparação com as cidades do interior que conheço. Mas com ou sem emprego, os rostos da maioria dessas pessoas tem que ser fechada e a pressa nas ruas é incondicional. O barulho urbano é grande, mas você observa este aglomerado de pessoas (como nos pontos de ônibus) e elas não se falam; a maior parte do barulho sai dos automóveis. Quando entro em um ônibus em Marília, se estou sozinho, geralmente converso com a pessoa do lado, ou com o cobrador. Aqui o sujeito entra, senta, se tiver lugar, e dorme - ou ouve o emepêalgumacoisa. Abre a boca pra pedir licença para os que bloqueiam a porta, quando já se está perto para descer no próximo ponto - isso quando se pede licença. Nos metrôs, o silêncio é o mesmo: já estou quase tentando comunicação com o tio ou tia que anuncia a próxima estação.

Corpos urbanos

Corpos iguais ao meu e ao seu aqui dentro da biblioteca da PUC, de onde escrevo esse texto: o sujeito cabeludo com uma camiseta de banda de rock espirra e cossa seu nariz; a moça que, mesmo com o frio, quer exibir seu decote; o "homem sério atrás do bigode" na frente de seu notebook automassageia as laterais de sua região craniana.

Do lado de fora, alguns poucos pontos antes de chegar aqui, havia dois moradores de rua almoçando. Um deles, ao mesmo tempo em que comia alguma coisa de tonalidade cor de laranja, ia caminhando, mesmo manco de uma das pernas, de encontro ao outro, que estava sentado no chão e balbuciava alguma coisa para o que vinha ao seu encontro. A mesma força que moldou nossos corpos pouca coisa pode fazer com aqueles dois, classificados então como "anormais" para os olhos viciados na padronização da estética dominante.

Meu corpo sente frio nessa noite. Talvez aqueles não sentem: frio é coisa de meteorologista ou jornalista burguês "normal" da Reuters ou do Jornal Nacional. Tais “anormais” nem sabem o que é quente ou frio. E assim concordo com Adoniran Barbosa: "Deus dá o frio conforme o cobertor".

Arte é para ir além

Desembarquei em São Paulo também para um show do Marcelo Camelo. A arte dele é institucional e burocratizada (com empresário e gravadora), mas, esse artista sabe se apropriar dessas ferramentas e conseguir apontar para alguma direção pra bem longe delas. E assim, sua música, como de muitos outros músicos brasileiros ou não, pode nos levar para outro lugar além dessa insensatez que aqui vivemos.

Discursos, silêncios, regras, corpos e verdades são criados historicamente - e outras formas de viver estão ainda para nascer. E nós, acadêmicos e artistas, podemos contribuir na produção e criação de algo novo com uma, potente, que nos permita mudar a direção do que nos constitui aqui, nessa cidade, naquele interior...


Pedro Meinberg

1 comentários:

  1. Que Bacana... Morei na metrópole paulistana durante boa parte da minha vida, mudei-me recentemente para Marília e, meu estranhamento foi exatamente o contrário do seu, engraçado como nos acostumamos com ao caos urbano,nos moradores de São Paulo, todos concentrados na solidão... com o tempo fica tudo tão normal...

    cheguei na tranquila cidade mariliense, ligada na tomada 220, e... ápos o choque cultural,
    percebi como nos tornamos estressados pelo corre-corre da cidade grande. Demorei um tempo para me acostumar com o ritmo da cidade, novos códigos, internet à radio, os meios de transportes alternativos, sem metrô, a substituição do táxi pela moto-táxi, mais bicicletas nas ruas, mais pássaros cantando, mais estrelas visíveis no Céu noturno.
    Foi uma boa troca, sem dúvidas, mas o que mais sinto falta é a diversidade de instituições culturais, museus, teatros, centros culturais, música rolando pelos quatro cantos da cidade, fascinante... neste sentido São paulo é muito
    abrangente.
    Marcelo Camelo... sou fã desse cara! me recordo com alegria à um show ainda que assisti do Los Hermanos, no começo da banda, no playcenter, em pleno dia de semana, numa quarta-feira, deixei de ir à escola para ver o show, promovido por uma rádio local, foi maravilhoso!!!
    é... A terrinha da garoa têm muito disso...
    cover dos beatles na Av. Paulista...

    Saudades da Puc, estudei lá, me formei em 2008,
    e agora estou querendo entrar para sociais aqui na Unesp.
    Como faço para participar do grupo de estudos de vcs? pet né!

    identifiquei-me com seu blog!

    Bacana

    Camila gimenez

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